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  • Luciana Corrêa

Caderno de receitas tão antigo...❤



Eu e meus recebidos! Não é assim que se fala hoje em dia? "Recebidos." Pois é, recebi um recebido que, na verdade, não é nada disso que ocorre hoje em dia. Recebi um caderno de receitas que era da minha avó. É um recebido? Talvez... Bom, tamanha foi minha alegria e gratidão, enorme foram meus olhos que cresceram diante daquilo, que até colocaria nas minhas redes sociais: olha lá o meu recebido, vejam vocês o que me mandaram! Não é assim? Mas não foi bem assim que ocorreu!


Com rapidez abri o caderno e comecei a folheá-lo. Página por página as receitas se apresentaram acrescidas de muitas lembranças e figuras, imagens do passado que vieram à minha cabeça. A cada bolo, a cada prato, a cada sobremesa, até o aroma podia sentir e algumas passagens pude relembrar. Seu aspecto velhinho, quase amarelado, suas páginas por vezes rasgadas, sua letra tão certa... Um caderno escrito à mão, como pouco se vê hoje em dia! Sim, algo já do pretérito, pertencente ao século pregresso, ainda palpável e distinto, preserva em si a marca da dona, minha avó. Suas digitais estavam por lá e à medida que sua idade avançava, o caderno mostrava a fragilidade de sua escrita, ora se curvando pra cá, ora tremelicando pra lá.



Ao distrair o meu olhar daquele caderno de receitas tão antigo, logo me deparei com o momento em que vivemos tão cheio de aplicativos, sites, redes sociais, grupos de mensagens... Hoje o mundo não é mais palpável, não é mais escrito à mão - não rasga, não amarela, não envelhece - pois é virtual e a virtualidade das coisas não se desgasta, apenas é ultrapassada e, tal qual chegou, se vai! Num minuto e pufff. Desaparece... Hoje em dia as receitas se perderam nas nuvens, estão em algum lugar e, com certeza, estão distantes do papel. Não são mais escritas a grafite ou à caneta. Nós as achamos, com tremenda rapidez, pelo toque delicado de nossos indicadores, nada mais. Folhear páginas até encontrar uma receita? Quanta perda de tempo! Não nos é mais habitual. No máximo alguns toques e, no futuro próximo, nem toques precisaremos dar...


A impessoalidade das coisas é gritante no mundo em que vivemos, nada mais me pertence ou te pertence, nada mais foi escrito à mão, nada mais possui alguma digital... Incrível como nos desconectamos das coisas materiais nos entregando, mais e mais, as coisas virtuais, nos desconectamos do mundo palpável e de nós mesmos por sua vez, mas... peraí! O mundo ainda é material e as pessoas ainda são tangíveis, ainda nos cruzamos em rápidos olhares, olho no olho, como antigamente... Por mais distantes que parecemos estar, ainda os nossos passos deixam as marcas precisas sobre o nosso caminhar.



Ainda nos distraímos folheando um livro, batendo um bolo ou jogando uma bola. Ainda transformamos o mundo pelo toque morno de nossas mãos, pelo nosso olhar incisivo, pelo sorriso acolhedor, pelas palavras solidárias e pelo silêncio profundo de nossas vozes quando se calam. Ainda impactamos o mundo pela nossa existência, pela troca, pela doação, pela alegria que transbordamos em nosso entorno. Ao bater um bolo, ainda uso exaustivamente minhas mãos para acrescentar, tirar, misturar e peneirar...


Então aquele caderno de receitas tão familiar e tão antigo me trouxe além das saudosas receitas, além da presença suave de minha avó, trouxe uma conexão maior comigo mesma pela necessidade de estar de corpo presente, deixando a marca indelével, intrasferível e pessoal em tudo o que fizer. Até neste texto que aqui vos apresento... Sim, mais do que postar, stalkear, viralizar, mais do que estar presente na vida virtual das infinitas redes sociais que existem por aí, é preciso fazer, olhar, tocar, sentir e estar! Os momentos às vezes são assim: um simples presente, algo vindo do passado, objeto despretensioso e singelo, mas sim, carregado de pistas para viver um presente menos conectado e mais feliz!



E assim termina este pequeno texto contando um singelo momento chamado... Hygge!


Luciana Corrêa – Mixing Things with Love


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