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  • Luciana Corrêa

O chá da vovó ❤



Não podia ser diferente, toda a semana ela abria os salões. Ao adentrarmos, raramente se ouvia o movimento de louças e talheres, nem o aroma agradável de bolo de fubá no forno, nem tão pouco a víamos caminhando e sendo acomodada na poltrona da sala. Todo o cenário já estava pronto como numa tela antiga, mágica e impressionante de Renoir. Quando chegávamos, lá estava ela, sentadinha muitos minutos antes do horário marcado, com suas mãos pousadas no colo delicadamente. Já haviam se passado as noventa e tantas Primaveras e era visível em suas alvas madeixas, em seu colar de pérolas off White e no petite twin set cor de rosa antigo. Também percebíamos em seu tagarelar nostálgico, nas lembranças da mocidade, no amado esposo que cedo partiu e, claro, nas recordações de Von Brehmer. Mas sua fisionomia era diferente. Havia muito brilho no olhar, leve sorriso maroto nos lábios, uma piscadela aqui e outra acolá. Meiguice, ternura e vivacidade. Assim era ela!



Anfitriã como poucas, sabia todas as nossas preferências, o que faltava e o que vinha em excesso. O que não estava de seu agrado logo os olhinhos se reviravam levemente para cima e os lábios se curvavam num sorriso desconcertante. Mas aí havia uma campainha secreta, escondida estrategicamente de baixo das suas pernas que era prontamente acionada chamando a sorridente Elaine. “Você pode trazer mais suco, por favor?”. Cada um de nós chegava ao seu horário e não havia obrigatoriedade na presença, queríamos estar ali! Então era chegar, acomodar-se gostosamente no sofá e conversar amenidades. Quando a conversa se enviesava para lugares pouco amigáveis ela logo falava gentilmente “vamos falar sobre flores?” e aí tomávamos chá, café e bolo.



Às vezes havia crianças brincando e brinquedos espalhados pelo chão. Quando estas cresceram, com o passar de tantas primaveras e os brinquedos envelheceram, havia outras mostrando que a vovó foi se tornando, com o tempo, bisavó. Ou bisa, simplesmente. Havia vida, movimento e afeto naquele lar tão calminho e aconchegante. Quando estávamos a sós até um gostoso soninho aparecia fazendo meus olhos lacrimejarem e a boca abrir quase como a bocejar. Logo ela oferecia uma manta dizendo que “não se podia receber vento nas costas” e me contava o que ouviu, ao longo da vida toda, comprovando essa sua teoria. Nossa querida partiu as vésperas dos 100 deixando uma família toda falando dela com carinho. Ah, e seu bolo centenário aconteceu (como poderia faltar?) e brindamos a sua memória num gostoso encontro familiar.



E assim termina este pequeno texto contando um singelo momento chamado... Hygge!

Luciana Corrêa – Mixing Things with Love

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