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  • Luciana Corrêa

Se eu pudesse te escrever, seria assim...❤


Prezado,


Talvez você ainda não me conheça como eu tão bem te conheço! Sei que você se divide sempre em muitas partes e que depois irá entrar em muitos processos e métodos de preparo. Eu estarei ali, pacientemente, bem ao seu lado, te ajudando em todos eles. Mas primeiro vou colocar meu avental e também tudo na mesa, não quero que nada me escape, farei tudo como deve ser. Não me leve a mal se meu lado metódico e perspicaz te desagradar. Faço isso para que tudo corra bem, para que depois me agradeça pelo sucesso de nossas atribuições; serás altaneiro de si mesmo, brilharás nos olhares e paladares alheios. Neste primeiro momento serei bem ágil e alcançarei todos os cantos da cozinha em busca de tudo o que for preciso, falarei sozinha em voz baixa achando que ninguém ouvirá, abrirei todos os armários e mil vezes a geladeira; será impossível me acompanhar com os olhares. Se eu, por acaso, empalidecer pela ausência de uma de suas partes, calma que isso inúmeras vezes já aconteceu... Nesta hora me ausentarei por poucos minutos, te deixando sozinho e viajarei até o mercadinho mais próximo em busca do fermento. Ou talvez da farinha ou do açúcar... Tanto faz. Uma chatice quando isso acontece, mas aí seus alvos ovos recém saídos da geladeira irão, aos poucos, com o tempo, voltar a temperatura certa para os nossos preparos.



No mercadinho serei rápida, mas antes darei “bom dia” ao Sergio que todas as semanas me atende com tamanha presteza. Tentarei ser breve, mas sei que ele perguntará algo sobre mim, falará do tempo lá fora, dirá algo sobre a pandemia, palpitará de relance sobre a política... Eu sei que sentirei uma pequena gota de suor escorrer pelas costas, aí darei um sorriso como quem diz “então tá, foi bom nosso papinho, realmente hoje está quente, mas preciso ir”. Ele não irá identificar meu sorriso largo de despedida, pois uso máscara nesta hora. Então aperto os olhos com vontade, faço-os brilhar quase a lacrimejar, olho de relance para a porta, para o relógio e parto. Se acaso ele não notar essa minha pressa necessária, se acaso tartamudear mais alguns pequenos comentários sobre o dia ou sobre o ano, ouvirei já de longe quase a entrar no meu carro, lamentarei a falta de tempo para um colóquio maior, mas da mesma forma partirei. Você estará me esperando nesta hora e almejo te ver para iniciarmos todo o planejado. Mas caso eu me demorar mais um pouco, me perdoe, foi porque encontrei todos os faróis fechados, foi porque deixei um punhado de pedestres passarem tranquilamente ou porque então o trânsito da rua estava de perder a cabeça. Quando chegar novamente encontrarei tudo bem posto na mesa numa calmaria de dar gosto e poderemos enfim começar!


Com presteza lavarei minhas mãos utilizando os 20 segundos recomendados, passarei álcool gel ou talvez não, tornarei a colocar meu avental. Nesta hora paro para observar tudo na mesa e minha mente divaga sobre tudo o que você representa. E quer saber? Nosso caso de amor, se é que me permite usar este lugar tão comum, me leva a poetizar sobre todas as suas facetas. E não são poucas! Eu começo assim... “Um bolo pode ser feito de muitas maneiras! Podemos bater apenas com as mãos utilizando o fuê, usar a batedeira ou o liquidificador para misturar. Um bolo pode ser feito com manteiga, com margarina ou óleo e isso interfere em sua textura, sabor, durabilidade e maciez. Um bolo pode ser feito as presas, vagarosamente, com atenção ou com a falta dela, mas sempre com amor! Um bolo deve respeitar suas regras, medidas, ingredientes, modos de se fazer; sua exatidão. Um bolo deve ser aquecido medianamente para que sua massa cresça com parcimônia, nem muito rápido, nem de uma vez só, nem só para um lado, nem tão pouco só para o outro. Um bolo precisa de uma forma que o contenha de maneira a abraça-lo com o carinho necessário. Se for muito grande, ele se perderá no espaço, se for muito pequena sua força intempestiva irá joga-lo para cantos inimagináveis... Quando me perguntam porque deu errado ou porque deu certo, digo que um bolo, ah um bolo, nem sei o que, de certo, dizer sobre um bolo... São tantos os fatores que até me perco; nesses 15 anos fazendo bolos; em explicar!”



E assim termina este pequeno texto contando um singelo momento chamado... Hygge!

Luciana Corrêa – Mixing Things with Love

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