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  • Luciana Corrêa

Festa de 100 anos ❤


Lembro como se fosse hoje daquele pijama colorido que guardava para ocasiões especiais. De tão lindo que era nem parecia um pijama, claro que poderia sim ser usado em qualquer lugar! Não haveria problema algum, não fosse o fato de a loja ser muito conhecida no segmento de pijamas e eu ser uma pré-adolescente, de seus 11 anos, imagino eu, dando total atenção a opinião alheia. Certeza que não passaria desapercebida em nenhum lugar “olha lá, ela saiu de pijama!”, mas isso não me impediu. Naquela manhã estava certa, tão certa que fiquei cega para tudo e para todos. Queria vestir meu pijama colorido! Ou pelo menos parte dele, ou seja, a blusa editada com um shortinho de sarja bege. Certo! Estava radiante, não era à toa, aquele dia seria especial! Iríamos viajar com a família, era um domingo de sol e nosso destino seria uma “casa de velhinhos” em Campinas, onde comemoraríamos os 100 anos de minha bisavó, Letícia. Claro que tudo bem ir de pijama...



Chegamos em sua casa e havia um quintal bem grande no fundo com árvores frutíferas, chão de terra batida, gatos e nada mais. O que mais me encantava, no entanto, era a sala de visitas. Sempre a meia luz, silenciosa, móveis antigos e alguns velhinhos permanentemente sentados em suas respectivas poltronas. Nunca os vi de pé, ou passeando, ou indo de lá para cá, nunca... Chegávamos e eles estavam lá, saíamos e eles continuavam lá. Sorriam, estendiam as mãozinhas trêmulas devagar, falavam quase balbuciando. Eu gostava, achava graça na fragilidade amorosa que pacientemente nos aguardava em visitas mensais. Outros velhinhos andavam, vagarosamente. E também eram amorosos, risonhos e pacatos. Eram todos tios avós, tia bisavó e a aniversariante do dia, a minha bisavó! Ninguém notaria minha falta de imaginação ou excesso de coragem em ir de pijama, ninguém... Só não contava com a ida de muitos primos, afinal um aniversário centenário seria prestigiado por toda a família. E lá estava eu de pijama...



Frente a um punhado de primos, o jeito foi me ocupar colocando as 100 velas em cima do bolo, uma a uma, aí acendê-las todas, reacender as mais teimosas e levar até o colo da aniversariante em sua poltrona. Depois cantar parabéns com entusiasmo tentando ouvir seu canto baixinho, seu riso manso e as mãozinhas quase batendo palmas, quase. O que será que ela pensava? Finda a música, ajudamos a apagar todas aquelas velas com nosso sopro alegre e juvenil. Logo em seguida retiramos o bolo de seu colo, tão rápido quanto o “parabéns”, para não cansá-la demais. Não me lembro do sabor, não me lembro se foi bom, me lembro somente da cor, branca. E também das suas luzes intensas e festivas numa imagem como se fosse um flash de câmera antiga. Depois todos se reuniram no jardim, em frente à casa, para uma foto familiar que registraria aquele célebre momento. E imaginem quem estava lá! Todos eles, sentadinhos em outras cadeiras, mesmo aqueles que nunca foram vistos fora de suas poltronas. Letícia também estava lá! Provavelmente feliz. E lá estava eu, de pijama, claro, crente que havia passado batida a minha doce ousadia!



E assim termina este pequeno texto contando um singelo momento chamado... Hygge!

Luciana Corrêa – Mixing Things with Love

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